2. ENTREVISTA 24.4.13

MARCELO RUBENS PAIVA - "EU NO SEI PARA QUE SERVE A COMISSO DA VERDADE"

O escritor, que perdeu o pai nos pores da ditadura, critica a forma de atuao da comisso e diz que falta coragem para lidar com os desvios histricos cometidos no Pas
 por Rodrigo Cardoso

SUPERSTICIOSO - Ele tem pedra e nota da sorte, s vai a jogos do Corinthians com a mesma camisa e comea a escrever livro ou pea de teatro apenas no incio do ano
 
Do alto do nono andar do prdio onde mora na zona oeste de So Paulo, o jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva ouve um grito de gol. Duelavam Barcelona e Paris Saint-Germain, jogo transmitido pela tev. Fantico por futebol, ele logo comentou: Como tem gente idiota que torce para o Bara, no? Detesto esse time!
 
Paiva no se encolhe para colocar para fora o que o incomoda. Aos 53 anos, faz isso com o vigor do rocknroll que marcou a sua gerao e at hoje faz ferver o seu sangue de descendente de italiano. Um dos ltimos que o tiraram do srio, este ms, foi o governador de So Paulo, Geraldo Alckmin, ao nomear como secretrio particular o advogado Ricardo Salles. Alinhado  extrema direita, ele, entre outras barbaridades, sugeriu no ter havido crimes durante a ditadura. Paiva, cujo pai, o ex-deputado federal Rubens Paiva, desapareceu aps ser levado pelos militares em 1971, exigiu uma retratao e a discusso ecoou no Pas. Na entrevista a seguir, o escritor  autor, entre outras 11 obras, de Feliz Ano Velho, livro mais vendido na dcada de 1980  foi alm: O Brasil vive uma crise de inteligncia, afirma ele. Quanto mais petrleo o Pas descobre, mais burro fica.

"A anistia  um entulho autoritrio. O (ex-presidente) Figueiredo mandou para o Congresso uma lei do governo ditatorial

O Facebook e o Twitter mostram que existe uma parcela da sociedade muito conservadora, que resultou em figuras como o deputado Marco Feliciano"

Isto - Como v o trabalho da Comisso da Verdade?

Marcelo Rubens Paiva - No se entende o porqu de apenas dois anos de trabalho da comisso. Por que se tem de correr contra o relgio? Eu, na verdade, no sei para que serve essa comisso. Ela no  punitiva. A direita concordou com a comisso, desde que ela fosse com base na histria e no uma comisso poltica. Que besteira  essa? Como voc pode se livrar de seus ideais para fazer uma anlise histrica, filosfica, literria? Impossvel. E outra: a Comisso da Verdade vai contar a historinha do que aconteceu e ficar por isso mesmo? 

Isto - A comisso o decepciona, ento?

Marcelo Rubens Paiva - Desculpe a expresso grosseira, mas  uma comisso de um pas de c. Enquanto na Argentina os caras pem ditador na cadeia e pedem para o Brasil extraditar o torturador (o argentino Claudio Vallejo, que era procurado por crimes praticados na ditadura portenha) do Tenrio (Francisco Tenrio Cerqueira Jnior, pianista brasileiro que teria sido torturado pelo argentino e desapareceu, em 1976, em Buenos Aires), o Brasil cria uma comisso que no vai punir e vai passar dois anos trabalhando para entregar um relatrio. E da? O que esse relatrio implica em relao a direitos? Mesmo assim, acho que  uma comisso ousada, que chama o Delfim Netto  o brao do empresariado na ditadura  para falar da Fiesp, da participao dos empresrios. Ela  interessante, mas...

Isto - Acredita que a reviso da Lei da Anistia poderia ajudar?

Marcelo Rubens Paiva - A Lei da Anistia  antidemocrtica, precisa ser revista,  um entulho autoritrio. Eu participei de passeata pela anistia. S que o (ex-presidente Joo) Figueiredo mandou para o Congresso uma Lei da Anistia do governo ditatorial e ela foi aprovada. O Congresso no tinha oposio, ela era tolhida. Metade dela estava no exlio e a outra, morta. Os sindicatos estavam sob interveno, o movimento estudantil comeava a reconstruir as suas entidades. E assim veio a Lei da Anistia desse Congresso. 

Isto - H quem defenda que ela foi importante para pacificar o Pas.

Marcelo Rubens Paiva - Tambm j ouvi por a que ela  uma lei democrtica porque trouxe paz. Paz coisa nenhuma! Olha a tortura que rola at hoje nas cadeias, os abusos e crimes contra os direitos humanos no Brasil. Desculpe, mas a Comisso da Verdade  a prova de que o Brasil no sabe enxergar seus problemas de forma vertical, mas s da horizontal. A gente est lidando com a anistia e com os crimes da ditadura da mesma forma com que lidamos com os massacres indgenas, a escravido, com Canudos. Falta coragem para lidar com os desvios histricos cometidos no Brasil.

Isto - O sr. exigiu desculpas do governador de So Paulo, Geraldo Alckmin, pela nomeao do secretrio Ricardo Salles, que disse no ter havido crimes na ditadura. Houve alguma manifestao dele?

Marcelo Rubens Paiva - Nada! Eu espero que o PSDB reaja. Eu respeito a direita, que teve o socilogo Jos Guilherme Merchior, um grande intelectual. No se deve negar o direito de a direita pensar. Mas o que no pode  essa direita que deturpa a histria, como o presidente do Ir, Mahmoud Ahmadinejad, que diz no ter existido o Holocausto, e do Salles, que fala que no houve crimes na ditadura. O cara  um ignorante completo! E est sendo sustentado pelo Imposto de Renda que eu pago, j que  um secretrio do governo do Estado. P, eu tenho o atestado de bito do meu pai. T louco? Como no teve vtima da ditadura? 

Isto - O que achou da reao do PSDB nesse caso?

Marcelo Rubens Paiva - O grupo do PSDB histrico fica indignado com esse cara e com o Alckmin. O Alckmin no combina com o PSDB, um partido do Alberto Goldman, que foi do PCB; do Serra e do Fernando Henrique, expulsos do Brasil; do Covas, que foi cassado. Eu j vi peessedebista lamentar o fato de se ter deixado criar o Alckmin.  bonita a histria do PSBD, ligada s Diretas J. Mas o que vai acontecer com o partido? 

Isto - Acha que as redes sociais do voz s minorias?

Marcelo Rubens Paiva - Interessante como o Facebook e o Twitter mostram a ns, que nos achvamos donos da verdade, que existe uma parcela da sociedade muito conservadora, ignorante, que no conhece histria, teve uma ascenso social e resultou em figuras abominveis como o deputado Marco Feliciano (PSC-SP).  assustador imaginar que ele  presidente de uma Comisso de Direitos Humanos.

Isto - As redes amplificam todo tipo de discurso.

Marcelo Rubens Paiva - Sim, como as declaraes absurdas da Joelma, da Banda Calypso (que comparou homossexuais a viciados em drogas), ou frases de colunistas que comparam casamento gay ao casamento entre um homem e uma cabra. L, tambm se d uma pecha de heri a um presidente do Supremo Tribunal Federal, como o Joaquim Barbosa, um cara completamente desequilibrado, que agride jornalista, juzes. O Brasil vive uma crise de inteligncia. Quanto mais petrleo o Pas descobre, mais burro fica.

Isto - J teve vontade de ter filhos?

Marcelo Rubens Paiva - Tive. J engravidei uma namorada, mas ela no quis ter. Fiz uma coluna defendendo a descriminalizao do aborto e me chamaram de assassino. Hoje, voc fala no assunto e parece que est confessando o assassinato de uma criana. A sociedade brasileira est completamente atrasada em relao ao resto do mundo nesses assuntos de sade pblica, direitos humanos. Ter o direito de fazer um aborto em uma clnica decente  uma coisa to evidente, bvia, para mim. Mas em uma sociedade patriarcal, machista como a nossa, isso  reprimido, proibido, crime. O Brasil tem um lado difcil de entender. No sei se por causa dessa comunidade catlica numerosa  e, agora, incluindo esse grupo evanglico forte  ou se  o fato de sermos uma sociedade escravocrata.

Isto - O sr. ir oficializar o seu casamento. Quem tomou a iniciativa?

Marcelo Rubens Paiva - A ideia partiu de mim. J fui casado antes e, agora, estou casado de novo h trs anos (com a filsofa Slvia Feola). Vai haver uma cerimnia, uma festinha, para a assinatura. Nenhum dos dois segue uma religio. Outro dia discutamos se sou agnstico ou ateu. Eu sou mais ateu, porque gosto de umbanda, frequento roda de candombl, j segui o I Ching, j recebi bno no Gantois. E tambm tenho supersties. 

Isto - Quais?

Marcelo Rubens Paiva - Carrego na bolsa uma pedra da sorte; na carteira, uma nota da sorte. Tenho um colar de Xang. Vou ao jogo do Corinthians com a mesma camisa. Se o Corinthians est perdendo, tenho um jeito de faz-lo reverter o placar: eu paro de ver o jogo, vou para o computador, mas a minha mulher tem de ficar no quarto vendo a tev, sem mudar de posio.  batata, o Corinthians vira o jogo. Tem mais: sempre comeo a escrever um livro ou uma pea no incio do ano. Toda a histria que termino tem de ter a palavra fim. Talvez eu seja ateu, agnstico e tenha toque! 

Isto - Em 30 anos de carreira como escritor, o universo feminino foi pouco abordado. Por qu?

Marcelo Rubens Paiva - Sempre me incomodou o fato de no escrever bem sobre mulheres. Eu era acusado de ser um autor machista. Mas eu tenho quatro irms. A minha famlia  matriarcal. Quem manda em casa so as mulheres, sempre mandaram. Escrevi Feliz Ano Velho aos 22 anos, era um moleque. E eu queria entender um pouco mais sobre as mulheres para poder conquist-las. Foi quando comecei a escrever para o teatro, construindo muitos personagens femininos, que apareceu o prazer de escrever por meio de personagens femininos. Mas erro, no acerto muito. Eu chuto bastante.

Isto - O sr. viveu mais tempo como cadeirante do que o contrrio. Como foi essa passagem?

Marcelo Rubens Paiva - Vivi 33 anos como cadeirante e 20 como no cadeirante. Me acostumei rpido. Hoje, os cadeirantes se acostumam mais rpido porque a sociedade est mais preparada. Mas eu tive que militar muito. Outro dia, sa para pegar o metr, mas acabei pegando o nibus. Fico muito feliz que tenha o dedo da minha turma de deficientes, da minha militncia, dentro dos nibus. Estar em uma cadeira de rodas me fez ter o livro Feliz Ano Velho para escrever. Talvez eu nunca tivesse escrito nada se no estivesse assim.


